Refúgio
A rotina que se entremeia na sociedade contemporânea costuma estrangular os laços familiares de inúmeras maneiras. São horas e horas dedicadas ao trabalho; as crianças, cada vez mais exigidas nas escolas numa espécie de preparatório para a vida adulta que as faz questionar se querem mesmo crescer. O trânsito nos mantém sempre atrasados para os compromissos. Pessoas irritadas por problemas dos mais diversos, cuja raiva as torna violentas e incapazes de um gesto de gentileza. Morar nas grandes cidades vai, aos poucos, se tornando algo indesejável, e muitos começam a cogitar se afastar dessa loucura, buscando abrigo numa cidadezinha onde viver não seja um combate permanente e chegar em casa não signifique pensar: “Putz, ainda tem os deveres de casa das crianças”, os quais, ressalte-se, raramente são apropriados para que elas deem conta sozinhas.
Neste feriado de carnaval, ao contrário de tantos anos em que escolhi cair na folia, escutei o apelo do meu marido, que prefere a calmaria aos empurrões, e partimos com as crianças para uma pequena cidade do Ceará. Outra família de amigos nos acompanhou, e passamos dias deliciosos em que percebemos, logo nas primeiras noites, a dilatação do tempo. Olhávamos o relógio perplexos por ainda ser tão cedo e já tínhamos feito um bocado de coisas juntos: praia, frescobol, vôlei, mais praia, almoço, piscina, conversas, banho, brincadeiras de STOP (perdi meu posto para meu marido, que há anos guardava o desejo secreto de me vencer rsrsrsrs), jantar, mais conversa… e nada de chegar a hora de dormir.
As crianças diminuíram o interesse pelas telas. Escutamos suas histórias, elas escutaram as nossas. Todos juntos, numa troca quase impossível de acontecer na vida “normal”. Cheguei a cogitar que, por ser poeta, talvez só eu estivesse prestando atenção na beleza que a calma faz com os dias.
Mas, no nosso último dia de praia, enquanto brincávamos com as ondinhas daquele mar manso, Noah, no auge dos seus dez anos, me disse:
— Mãe, gostei muito daqui. É calmo, tipo um refúgio. Que nem você é o meu refúgio, né?

