Marrocos
A vez em que fui atrás de uma personagem mas acabei me encontrando e depois me perdendo sem mais saber quem eu era...
Comecei a escrever meu primeiro romance (Terra úmida, 2021) em 2017 durante um curso de preparação do romance com os professores Tiago Novaes e Reinaldo Damazio. O curso deu as primeiras orientações, consegui encontrar as vozes narrativas depois de muitas versões, então as aulas acabaram e eu segui a escrita sozinha por mais dois anos. Já tinha avançado bastante quanto às paisagens amazônicas. Viajei de barco, fui ao museu do seringal, mergulhei em dissertações e teses da UFAM sobre o período da borracha, li os livros do professor Samuel Benchimol sobre a chegada dos judeus marroquinos na Amazônia, li livros de ficção que falavam desse período histórico, pesquisei no Google as paisagens marroquinas, uma amiga querida que tinha ido ao Marrocos me encaminhou várias fotos históricas e contemporâneas, enfim, meu caderno já estava bem robusto para que eu pudesse finalizar a história tal qual eu me propunha.
Já estávamos em dezembro de 2018 quando pensei que poderia ir com a minha família ao Marrocos para ver, sentir, experimentar o que eu descrevia no romance. Precisávamos planejar financeiramente e pensar na dinâmica de uma viagem com uma criança de oito e outra de apenas três anos. Meus pais acharam uma loucura, mas eu disse que seria uma experiência incrível e que não viajaria sem meus meninos. Meu marido e eu nunca tememos viajar com nossos filhos, sempre acreditamos que o maior legado que deixaremos para eles são a educação e as viagens que fizemos juntos ao longo dos últimos quinze anos.
Em julho de 2019 saímos de Manaus para São Paulo, onde pernoitamos, para depois embarcarmos rumo a Espanha, mais precisamente Madri. Depois faríamos viagens de trem e de carro até chegar ao famoso estreito de Gibraltar, de onde pegaríamos um ferry boat para atravessarmos os catorze quilômetros até o continente africano, da mesma maneira que meus antepassados fizeram em 1902, quando decidiram sair de Tânger - extremo norte do Marrocos - para chegar a sua nova Terra Prometida, o Amazonas.
A primeira emoção que se abateu sobre mim foi quando me dei conta de que era possível ver nitidamente a África - aquele continente gigantesco que tanto vi nos livros de história - se aproximando, enquanto o ferry se movia sobre águas calmas. Como podia ser tão perto? Eu não tinha noção. Nesta foto, estamos em frente à entrada da Medina, onde os judeus moravam em guetos, em ruas próprias, separados do restante da população.
Em seguida, senti que já não caminhava só. Era como se minhas ancestrais tivessem chegado para caminharem comigo ali, pelas vielas onde meu bisavô e seus familiares haviam morado, até ele completar a maioridade judaica, quando seus pais decidiram embarcar para o Brasil. Tudo começou a me soar familiar: os aromas, as cores, os sabores, parecia que eu já havia estado ali, conhecia cada canto, cada labirinto onde o guia nos levava e pedia cuidado, enquanto eu, destemida, caminhava como se soubesse onde queria chegar. Já não sabia se ali era eu ou Syme, a personagem do meu romance, que se embrenhava por aqueles caminhos.
Quem me trazia de volta a mim mesma eram meus filhos, sobretudo o mais velho, que já me acompanhava e perguntava cheio curiosidade o que eram aquelas frutas secas, de que eram feitos aqueles tecido tão coloridos, por que as mulheres ali andavam completamente cobertas, por que eu havia me cobrido com o lenço, por que eu não me dirigia aos vendedores ou por que eles nunca se dirigiam a mim? O choque cultural me trouxe de volta ao meu corpo, pois fui percebendo que até os meus braços de fora causavam desconforto nos homens e nas mulheres locais.
Quanta cultura para eu absorver em tão pouco tempo, quantas imagens captadas para serem transferidas assim que eu voltasse para casa. Daria conta de tanto? Ao mesmo tempo em que pensava no romance, não conseguia me afastar do presente - em ambos os sentidos - que era assistir meus filhos ali comigo, experimentando outra cultura, estávamos todos nos desterritorializando, juntos, como eu sempre sonhara em fazer.
Depois de quinze dias desterritorializados, voltamos, embora já não fôssemos os mesmos, como em toda viagem ou leitura que fazemos. Ao me sentar para escrever as lacunas do romance, tudo se resolveu mais facilmente, Syme estivera comigo o tempo todo e agora era ela quem finalizava a história. No fim de 2019, Milton Hatoum veio lançar seu livro em Manaus, na tradicional Banca do Largo do querido Joaquim Melo, que ainda não havia se encantado. Enquanto escrevia minha dedicatória, Milton perguntou o que eu andava escrevendo e então contei rapidamente sobre Terra úmida. Então ele me disse com aquele vozeirão que só ele tem: “Essa história precisa mesmo ser contada, mas não tenha pressa, deixe o romance descansar.” E, claro, obedeci. Desisti de publicá-lo no início do ano. Veio a pandemia de 2020, o edital do prêmio literário de Manaus esticado por conta da pandemia, então inscrevi o original. Venci o prêmio e Terra úmida veio à luz em abril de 2021, sem pressa, como Milton aconselhou.
Quem quiser conhecer a obra: https://www.amazon.com.br/Terra-%C3%9Amida-Myriam-Scotti-ebook/dp/B093KHRNFJ













O seu livro já tinha me interessado em 2024, bem antes de eu achar sua news. Ainda não li, mas vou colocar nas prioridades. Beijos