Despedida
Conto do meu livro Sol abrasador prepara solo fértil (2025)
Quando nossos lábios se encostaram, ainda era dia. Senti vergonha e receio de que a vizinha mexeriqueira tivesse nos flagrado e contasse pra ele, o velho-padrasto. Ao mesmo tempo, se ele tomasse ciência do fato, por mais inocente que fosse, logo nos casaria, e, então, eu estaria livre daqueles olhos de rifle, cada vez que eu passava pela sala ou pela cozinha. A mãe, coitada ou perversa, nunca saberei, fingia não perceber. Perdi as contas de quantas vezes aquelas mãos engelhadas alisaram minhas coxas enquanto eu dormia. Isso começou na semana seguinte à descida da minha primeira regra. A mãe revelou a notícia de que eu agora era mocinha e seu pescoço se virou pra me encarar, os olhos subiram e desceram, v a g a r o s a m e n t e, medindo cada parte do meu corpo franzino. Eu: uma presa. Petrificada, segurava a respiração e rezava pra que o velho-padrasto não tivesse coragem de fazer mais do que sua razão permitia. Prestes a completar dezesseis anos, desejava estudar e me tornar enfermeira, morar na capital e cuidar de crianças doentes em algum hospital grande, que nem nas novelas a que minha mãe e eu assistíamos antes do velho-padrasto voltar do trabalho, com algumas pingas na cabeça e sem-vergonhice nas mãos. No entanto, sabia que esse sonho ficaria pra depois que eu saísse daquela casa, daqueles olhares, daquela negligência materna que me arrasava. Seria raiva ou inveja da minha juventude? Como se eu tivesse culpa de ter crescido ou de minhas carnes ainda serem duras. A vizinha mexeriqueira deu com a língua nos dentes e o velho me esperou com um fio elétrico na mão direita, a mesma que ele costumava usar nas minhas coxas. Puxando-me pelos cabelos, ele me arrastou pra dentro de casa, babando fúria e desejo reprimido. Cadê a mãe, eu gritava. Foi lá na venda do Zé e disse que era comigo que tu te arranjasses, a sentença que eu der, tá dada. O corpo marcado, dolorido, em chagas. Fugi na mesma noite, bati na janela do teu pai, que entendeu foi nada. A mãe dele, senhora distinta, me tomou como filha, cuidou das feridas e disse, te aquieta, menina, agora estás protegida desse velho.
Casei naquela mesma semana, engravidei no mês seguinte. A barriga crescida, teu pai zeloso, tua avó amorosa, preparando enxoval, estávamos felizes à tua espera. Encarregava-me da casa, ajudava a boa velha a lavar as roupas dos bemdevida, cuidava do teu pai, trabalhador como só ele. O doutor aparecia vez em quando pela vila. Dizia que eu era saudável e ia parir menino forte. Não te preocupas, Jurema, vai vir na próxima lua. Ficava boba como que podia médico formado acreditar nas nossas crenças. Ele estava era certo! Chegaste empurrando minhas entranhas e o mundo. Teu choro ecoa até hoje no meu peito. Iuri, assim te chamei. Escutei em algum filme da tv e decidi que se um dia fosse mãe, meu filho se chamaria Iuri. Teu pai e tua avó aprovaram. Tua outra avó nunca apareceu, mas acompanhou tu cresceres de longe, com olhar de culpa, com as costas corcundas do peso pelo que não fez. Como era bom ser tua mãe, nada nesse mundo me fazia mais feliz. Deixei pra lá a vontade de continuar os estudos, a vontade de trabalhar com as crianças doentes, eu dormia e acordava tua mãe. Suficiente. Não queria perder teus avanços, tuas descobertas, teus primeiros sons, teus primeiros passos, nossas primeiras conversas. Queria que soubesses que estaria sempre ao teu lado, te guiando, te protegendo de todos os males desse mundo estranhamente bonito.
Ah, meu filho, como nos fizeste mais felizes e mais família e mais humanos e mais aprendizes. Quem tem filho sabe, é ele quem nos ensina. Lembra do nosso primeiro banho de rio? Lembra como ficaste assustado com os banzeiros que chegavam e nos embalavam, jogando um tantinho de água no seu rosto? Lembra de quando me disseste que não querias ir pra escola porque não querias ficar longe de mim? Lembra aqueles bloquinhos que tua avó ganhou da patroa e nós passávamos a tarde montando e desmontando, como se o universo inteiro fosse apenas nós dois, lembra, filho? Lembra quando chegaste de olho roxo, pela primeira briga na escola e eu fui lá na casa do menino tirar satisfação com a mãe dele e tu me segurando a saia, com vergonha do sarro que tirariam a semana inteira, lembra? Lembra quando teus olhos bateram nos de outra mulher, que não era mais eu, era a Nair, aquela moça bonita que tiraste pra dançar? Naquele dia eu soube que logo irias pra longe, que logo serias marido, pai, homem. Lembra quando entramos na igreja, de braços dados, tuas lagrimas denunciando amor e medo? Como estavas lindo, Iuri! Eras o homem mais lindo desse mundo. E então teve o dia em que eu atravessava a rua enquanto uma bala atravessava teu peito e eu fui chamada às pressas mas minhas pernas não obedeciam ao teu chamado porque eu sabia que o chamado era de Deus então não fazia sentido eu me apressar porque eu não queria te ver partindo pra longe de mim eu que tanto te amei e carregava no peito o maior amor que alguém pode ter por um filho me recusava a carregar um caixão que te levaria embora que levaria nossas horas juntos que só deixaria a memória de tudo o que tivemos tempo para viver desde aquele segundo em que fecundaste, fecundamos porque nunca mais fui a mesma desde o momento em que te soube dentro de mim e agora o que vou fazer da minha vida o que vou fazer com essa saudade que me arranha que saudade de quando me arranhavas o braço pedindo colo eu tô aqui filho pra te dar colo mas tu estás a sete palmos por causa de uma briga besta de bar volta Iuri não me deixa aqui DESMORRA!
Vem, minha filha, tá na hora de ir.
Me deixa, mãe! Ainda estou me despedindo.


Belo… belo.
Maior dor do mundo, com certeza ❤️🩹